VIII Reunião de Antropologia da Ciência e da Tecnologia

Novemeber 22-26, 2021

Alianças para outros futuros

Diálogos cruzados na crítica ao capitalismo tecnocientífico

Inventariar vidas tem sido uma prática recorrente da Ciência, do Capital e do Estado, seja em termos de espécies a serem conhecidas, classificadas e catalogadas, produtos a serem desenvolvidos e comercializados ou populações a serem governadas e reguladas. Seres dos mais diversos são quantificados e inseridos em cadeias de produção, convertidos em trabalho precário, insumos, mercadorias e dados. Indústrias e conglomerados financeiros contabilizam florestas em papeis, títulos, cifras e ativos que circulam em escala global. Processos de capitalização movimentam fluxos por toda a parte, conectando o pangolim chinês às ações da indústria farmacêutica, o RNA mensageiro às tecnologias da informação, mutações de vírus à expansão contagiante de ideologias políticas ultraconservadoras.

Com o lastro arrancado da Terra desenham-se gráficos e equações em bolsas de valores, predições econômicas e futuros incertos. Novos estratos geológicos se fazem dos ritmos entrelaçados e dissonantes de mercados e sistemas ecológicos. Das marcas que se estendem pelas paisagens – microbiológicas, geológicas, cosmológicas – urge a necessidade de pensar e experimentar coletivamente outros devires possíveis, relacionalidades em conexão com a Terra, inventários alternativos e alianças pautados por conhecimentos que levam em conta negociações e histórias para além do humano.

É preciso mais do que nunca explicitar, a partir da antropologia da ciência e da tecnologia, os dispositivos sociotécnicos que conferem materialidade ao capitalismo tecnocientífico, que transforma a Terra em recursos e sujeita relações outras-que-humanas à lógica do capital. E fazê-lo junto com críticas feministas que enfatizam como o capitalismo tecnocientífico toma corpo não como um fenômeno coerente e totalizante, mas por meio de projetos divergentes e fragmentados, frequentemente instáveis, inacabados e em risco. Junto com críticas pós-humanistas, que nos relembram de mundos mais que humanos em coabitação, das redes de conexões com a Terra, das relações que criam possibilidades de vida a partir de um processo mutante, de colaborações, transformações e devires. Junto também com críticas decoloniais à geopolítica global do capitalismo tecnocientífico, que explicitam os efeitos desiguais da devastação planetária e o racismo ecológico que se escancara em periferias, quebradas, beiras de rio, quilombos e terras indígenas. Junto com críticas animalistas, que propõem maneiras radicalmente inovadoras e antiantropocêntricas sobre o estar no mundo. Junto, por fim, com críticas indígenas e de povos tradicionais ao modo de vida capitalista, que nos oferecem um futuro possível por meio de alianças plurais e formas alternativas de se fazer, pensar e viver.

Como a antropologia da ciência e tecnologia no Brasil pode ajudar a construir uma compreensão crítica do capitalismo tecnocientífico? Como diálogos cruzados entre conhecimentos científicos e tradicionais podem contribuir para a emergência de  mundos em que os privilégios de certos humanos não devastem os modos de vida da multidão de outros humanos e outros-que-humanos? Como a atenção a composições multiespecíficas permite vislumbrar relacionalidades em conexão com a Terra? Como alianças estratégicas podem fazer brotar futuros possíveis que levem em conta  temporalidades entrelaçadas e convivialidades mutuamente constituídas?

Convidamos a todas e todos a fazer desta edição pandêmica e online da ReACT um lugar de encontro que possa repovoar nossa imaginação, não com modelos, mas com possíveis diálogos cruzados, conexões e alianças entre as críticas antropológica, feminista, pós-humanista, animalista, decolonial e indígena ao capitalismo tecnocientífico.


Comitê Científico

Ana Cláudia Rodrigues – Departamento de Antropologia, Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) 

Carlos Emanuel Sautchuk – Departamento de Antropologia, Universidade de Brasília (UnB)

Daniela Tonelli Manica – Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, Universidade de Campinas (Unicamp)

Eduardo Viana Vargas – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)

Eliana Junqueira Creado – Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)

Fabíola Rohden – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

Guilherme José da Silva e Sá – Departamento de Antropologia, Universidade de Brasília (UnB)

Joana Cabral de Oliveira – Departamento de Antropologia, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

João Paulo Lima Barreto Tukano – Universidade Federal do Amazonas (UFAM)

Leticia Cezarino – Departamento de Antropologia, Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

Marko S. Monteiro – Departamento de Política Científica e Tecnológica, Universidade Estadual de Campinas (Uunicamp)

Pedro Peixoto Ferreira – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

Rafael Devos – Departamento de Antropologia, Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

Renzo Taddei – Instituto do Mar, Universidade Federal de São Paulo UNIFESP)

Stelio Marras – Instituto de Estudos Brasileiros, Universidade de São Paulo (USP)

Suzane Alencar Vieira – Universidade Federal de Goiás (UFG)

Thales Haddad – Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)

Comissão Organizadora – PPGAS-UFSCar

Ana Cecília Campos

Bruno Campos Cardoso

Catarina Morawska Vianna

Felipe Vander Velden

Gabriel Sanchez

Luisa Fanaro

Luisa Tui Rodrigues Sampaio

Miriam Stefanuto

Tamires Cristina do Santos

Identidade Visual

Ion Fernandez de las Heras

Contato

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